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Saturday, November 18, 2006

destino cíclico.


Esse era o quinto natal de Rana no Brasil desde que voltara de Fez, e os anos se confundiam no tempo cronológico e psicológico da sua mente – ora parecia ontem, ora parecia que se passara uma eternidade desde que havia deixado a cidade aos prantos, com a mente nas ruínas.

Agora, Rana se tornara uma bela e misteriosa moça de 18 anos, de caminhar silencioso e profundos olhos de amêndoas. A nova rotina não a deixava pensar no que havia perdido, sendo que os últimos quatros anos apagaram as lágrimas do primeiro. A casa dos avós, em uma pequena e charmosa cidade catarinense, era calorosa como as brasileiras.

Tinha amigos, parentes, carinho e conforto, sem o deslumbramento de Fez. Mais que isso, tinha o Pedro. Seu sempre amável Pedro Leiber. Nunca tivera um amigo tão compreensivo, carinhoso e parecido com ela mesma. Na verdade, a amizade de Pedro já batia nas cercas do amor. Todas as tardes, voltando do colégio, estendiam-se sob os ipês amarelos no topo da colina e viam o anoitecer calados, brincando de adivinhar pensamentos. O mero encontro de olhares fazia das palavras não ditas de Pedro as de Rana, e assim desaguavam umas nas outras em um fluxo perfeito. Estava completa, e se alguns diziam que não se encontra a felicidade entre os homens, Rana se julgava abençoada por Alá.

Neste quinto natal no Brasil, porém, soube por um telefonema urgente que sua paz havia acabado. O pai, viúvo pela segunda vez, pedia o retorno da filha mais velha, para que cuidasse do irmão pequeno. Dessa vez, Rana não se atreveu a chorar ou desobedecer. Se é da vontade de Alá que eu passe a vida como as caravanas do deserto, nada posso fazer. Pedro esperava na sala quando Rana saiu do quarto, ainda tonta com a notícia. Sua discrição, porém, impedia que desse sinais de aborrecimento. Cumprimentou-o docemente e foi para a cozinha cumprir seus deveres. Sentiu-se incomodada com o olhar de Pedro, que pela primeira vez não conseguia decifrar por completo. Parecia atordoado e angustiado, como se tivesse um pressentimento. Ou seriam os olhos de Rana que estavam claros demais? Ficaram naquele jogo de esconde-esconde por algum tempo, até que Pedro tomara a atitude que há tanto esperava. O beijo, quente e doce, invadiu seu corpo em uma torrente de sentimentos, estilhaçando todas as armaduras que havia criado. Naqueles poucos segundos, lembrou dos últimos anos, de Hasan, da Kasbah, do pai, da dor. Correu entre os cacos de sua paz e pela primeira vez em quatro anos, chorou, amaldiçoando a sorte que se repetia.

[continua...]

Wednesday, November 15, 2006

Despedida.

A estranha Fez tornou-se bela e conhecida para Rana durante aqueles cinco anos. Farah e Hasan, seus primos distantes, tornaram-se irmãos e companheiros, assim como Amirah tornou-se mãe, mesmo com o tratamento distante e convencional sob o véu sempre negro. Conhecia cada canto das Kasbahs, ruínas milenares onde brincavam de cavalheiros, princesas e sultões. A bela Farah, com seus olhos grandes e azuis, compartilhava das confidências e dúvidas que surgiam com a adolescência. Eram agora uma família, completa e alegre como nunca teve. O Brasil e seus campos verdes ficaram apenas na memória desbotada de criança – tão distante quanto os quilômetros que os separavam.

Rana observava da janela os músicos e empregados com carneiros que chegavam aos montes pela viela. Ainda amanhecia, mas os preparativos para a Festa do Trono já deixavam a casa barulhenta e animada. Olhou para Farah dormindo tranqüilamente e a acordou.
- Vamos Farah! A casa já está cheia e sua mãe precisa de ajuda!
Farah resmungou, mas não se mexeu. Rana conhecia a prima o suficiente para saber que nem o ensaio dos músicos a faria levantar. Trançou os cabelos e desceu, mais por curiosidade que por disciplina.

Na cozinha, o pai e a prima Amirah conversavam em árabe, o que Rana já entendia. Mas não era preciso saber uma palavra para perceber que o assunto era sério. Amirah gesticulava inconformada, enquanto o primo mostrava-se irredutível. Parou atrás da porta e ouviu o que não queria. As lágrimas quentes e há tanto tempo esquecidas desciam grossas com aquelas palavras, que soavam como sentença. Seria mandada para a casa dos avós no Brasil, pois o pai se casaria novamente. Atordoada, correu para a Kasbah onde brincava com os primos, o refúgio de seus pensamentos.

Caia a tarde quando Rana acordou, deitada entre as pedras, com uma carícia suave em seu rosto. Era Hasan. Demorou alguns segundos para lembrar do que acontecera, caindo no choro novamente. O primo a abraçou.
- Procuraram você por toda Fez. Quando disseram que você tinha sumido, logo soube que estaria aqui. Já é quase noite, você vai matar minha mãe de preocupação.
- Não quero ir pra casa Hasan! Eles vão me mandar para o Brasil!
- Ah minha pequena...
Tomou-a nos braços e a beijou. Rana tinha treze anos e já via o primo como um belo rapaz, porém com a proximidade de um irmão. O primeiro beijo deveria ser do seu marido, não de Hasan. Assustada, afastou-se e deixou que as lágrimas a invadissem. Tinha medo de ir embora, de descobrirem, de não voltar a vê-lo. Naquele mar de incertezas que a sacudia e desnorteava, ganhava mais uma lembrança para chorar.

[continua...]

Tuesday, November 14, 2006

No pecado, as palavras sagradas.

Talvez Alá a tivesse perdoado.
Dessa vez, tinha dado todo o amor, bondade e compreensão que lhe restavam. Do contrário, recebera apenas desdém e raiva. Uma raiva que nunca soube ao certo de onde veio, tão repentina e sem motivo quanto um câncer – uma mutação que deformou e matou os sentimentos da forma mais dolorosa.
Cuidara de Hasan com a paciência e carinho de uma mãe ou esposa, e recebera de braços abertos os pedidos de desculpa que já sabia ela, seriam esquecidos no dia seguinte.
Afagava os cabelos suados em seu colo e rezava baixinho para que dormisse. Seu coração, um dia antes endurecido pelas coisas que ele havia dito, hoje parecia curado e apenas disposto a ajudar – a doar mais do que possuía. Naquela manhã, lera no alcorão sobre o verdadeiro valor da doação, aquela que nos toma além do que sobra, mas é dada com amor. Amor...Foi essa a palavra que o primo Imad usou ao vê-la andar desesperada pelos corredores com água e panos quentes: “isso não é cuidado de irmão, é amor. Amor de verdade”.
Sentada ali no quarto escuro e de odor forte, não sentia náusea. Não sentia mágoa, sequer sentia dor. As experiências dos últimos meses já diziam que quando se recuperasse, Hasan não olharia para ela ou agradeceria. Talvez sequer fosse lembrar, ou apenas fingiria esquecer. Rana preferiu não pensar, acolhendo todos os chamados com entrega.
Alá teria que perdoar. Por mais que este amor fosse proibido e a levasse para caminhos obscuros, era amor. E só o amor levava-a a fazer coisas realmente boas. Haviam pecado, era verdade. A doação de Rana, porém, pela primeira vez era verdadeira. E nada mais lhe restava.
[continua]
nota da nikky: eu sei que esses textos estão meio bagunçados e que alguns sequer seguem a mesma linha, mas eles surgem espontaneamente de acordo com a vida das personagens. Desculpas a quem acompanha, mas um dia eu desato esse nó! :*

Saturday, October 28, 2006

Fez


O céu era uma profusão de vermelhos vibrantes, que pareciam dar as boas-vindas à menina franzina que se arrastava pelas ruas da cidade, seguindo o pai e um carregador. A beleza dos lenços de seda ao vento, das essências e temperos desconhecidos, do pôr-do-sol atrás das mansões de pedra, tudo passava desapercebido pelos olhos apáticos de Rana.

Pararam em frente a uma porta de madeira, perdida entre labirintos de muros e ruelas. Aberta, dava lugar a um grande e amplo pátio de azulejos coloridos e tapetes com desenhos, como as belas casas árabes que vira nos álbuns de família.
- Esta é a casa de tua prima Amirah. É aqui que iremos ficar até eu encontrar uma casa para nós.

Uma mulher de véu preto com grandes olhos pintados surgiu no pátio. Atrás dela vinham duas crianças; uma menina, provavelmente da idade de Rana, e um garoto, uns três anos mais velho. Amirah era viúva e morava com os filhos e criados naquele emaranhado de quartos e salas.
- Então você deve ser a filha de meu primo, Rana. Ah-la u sahla!
- Chukran.
Respondeu a brasileira em seu árabe tosco e saiu seguindo os primos, como mandava o costume. Foram até a cozinha, onde conversariam sem perceber o quanto o destino havia unido-os. Farah e Hasan eram cúmplices, protagonistas e testemunhas de tudo que viria a acontecer.
Continua...

Wednesday, October 25, 2006

I.


A chuva fina batia no vidro do táxi, misturando-se com as lágrimas da menina. Durante as duas horas até o aeroporto, chorou em silêncio para não enfrentar o pai. Observava a paisagem conhecida, com seus grandes campos verdes e capões onde crescera. A idéia de morar em um lugar tão distante causava-lhe tremores.
Filha de mãe gaúcha e pai marroquino, aprendera cedo os costumes e a língua paterna. Brasileira, foi criada com parte da liberdade de sua família materna. Agora, dizia seu pai, teria de comportar como uma verdadeira muçulmana.
Com apenas oito anos, Rana já sofria no peito as dores que, por piedade de Alá, deveriam ser reservadas apenas aos mais velhos. A mãe, sopro de vida naquela casa tão conservadora, morrera há poucos meses, deixando-a à mercê do radicalismo paterno. Os avós marroquinos moravam em uma alegre cidade catarinense, onde passava as férias. Preferia morar com eles, naquela casa sempre cheia e calorosa, a ir para a desconhecida Fez com a frieza do pai.
Rana adormeceu chorando no avião e não acordou durante toda a viagem. Sonhou com a mãe, os avós e os campos floridos do sul, que se misturavam com castelos e mulheres de véu.
Não conseguia imaginar onde estaria a terra firme, nem se a encontraria em sua vida nova.
[continua...]

Wednesday, October 18, 2006

Pedro Leiber.


Ainda amanhecia em tons de rosa quando mergulhou na neblina fria do pé da colina. Estava sonolento, mas não pôde deixar de reconhecer aquela ruela de flores lilases de quaresmeira. A rua das conversas, dos planos, das corridas de bicicleta...Da sua Rana.
Diminuiu a velocidade ao dobrar à esquina. Porque eu resolvi vir por aqui? Tem tantos caminhos melhores e mais curtos até a colina. Eu podia ter evitado...
Pedro não soube se era sono ou se delirava, mas o conhecido cheiro de jasmim invadiu suas narinas, deixando-o tonto. Encostou o carro embaixo de uma árvore grande - que em sua época costumava ter flores -, esperando recuperar a lucidez.
Deve ser o velho...
Sentia falta dos chás do velho. Dos risos surrupiados à beira do bule que fervia, das mãos que se encontravam secretamente na cozinha, com a desculpa de disputarem um último pedaço de bolo.
Sempre ia à cozinha ajudar Rana. Bastava olha-la ali, serena, arrumando a mesa com perfeição e delicadeza. Furtava olhares e sorrisos, mas custava ter coragem de ir além. Talvez por medo da avó, que sempre os vigiava; talvez por medo da própria Rana, cujos pensamentos e desejos jamais compreendia. Só pôde ler a reciprocidade em seus olhos com clareza uma vez, naquela festa de fim de ano...
O cheiro de kafta e menta corria pela casa como as pessoas presentes. Tias trombavam com travessas, a avó, como matriarca e chefe de cozinha, gritava ordens às criadas. As vozes de crianças misturavam-se com a música dos tios, criando uma atmosfera alegre e aconchegante.
Pedro conversava com os amigos na sala quando a avistou no corredor. O vestido de renda francesa – presente da avó – destacava com feminilidade suas formas, evidenciando a mulher que se tornara. Sorriu cheio de surpresa, sem conseguir esconder a onda de felicidade que o dominava em sua presença. Rana sorriu de volta um sorriso triste, como quem tem algo para dizer, mas falta coragem.
- Nunca te vi tão linda!
Ela passou subitamente para a cor rosada.
- Talvez porque você nunca venha. Mudou de idéia sobre as festas de família?
- Não sei. Senti que precisava vê-la.
Os grandes olhos amendoados de Rana pareceram nuvear, como se a lembrança de um segredo pairasse sobre eles.
- Tenho que arrumar as bandejas.
E saiu, com Pedro a seguindo.Passaram pela sala desapercebidos em meio ao alvoroço que um vaso quebrado pela prima mais nova causara. Na cozinha, Rana se mexia impaciente, evitando encará-lo. Passaram uns cinco minutos sem que fosse dita uma só palavra. Para Pedro, estes minutos concentraram toda a infinidade de angústias e dúvidas dos últimos dois anos, parecendo uma eternidade. Respirou fundo e andou até o forno, de onde ela retirava cuidadosamente a última bandeja de mezzés. Em uma desastrosa tentativa de ajudar (e obviamente de se aproximar), colocou a mão sobre os dedos finos de Rana que, assustada, soltou a bandeja, deixando o som metálico ecoar pela cozinha.
- Rana! Não quero saber de estragos no meu jantar menina! Já basta a tua prima, Alá que me perdoe, mas não há de nascer criança mais atacada! E venha logo! Quer matar os convidados de fome?
Gritou a avó da sala, tirando-os do transe de suas mãos ainda unidas e desviando o seu olhar.
Pedro segurou-lhe o rosto, onde seus olhos mais pareciam de um animal encurralado. Rana entreabriu os lábios, mas as palavras, como que sufocadas, não saíram. Em um único surto de coragem, puxou-a para si e a beijou. Um beijo assustado e suplicante. Pedro quase pode sentir o gosto de medo e angústia naquela boca tão desejada.
Rana recuou.
- Eu vou voltar para minha casa em Fez. Daqui cinco dias.
Disse com a voz trêmula e correu, sumindo entre as dúzias de parentes que se amontoavam na sala.
O toque do celular trouxe-o de volta ao presente num sobressalto. Percebeu que estava atrasado – havia uns 20 minutos que estava parado em frente ao portão amarelo.
Rana...Nunca pude compreender o que se passava em sua mente...O que aconteceu no seu passado, que pecado um anjo pode ter? Como pode guardar tanto mistério uma pessoa tão doce?
Olhou uma última vez para a casa, imaginando onde Rana estava nesse momento e se ainda pensava nele. Do outro lado do mundo...do meu mundo...
[continua...]

Sunday, October 15, 2006

Rana.



Amaldiçoou três vezes a si mesma quando acordou sentindo os braços fortes que a enlaçavam, intrusos conhecidos. Rana jamais compreendia o poder que aquele corpo exercia sobre o seu, fraco e ofegante. Fosse a bola da vez ou não, lutava com todas as suas forças – quase extintas – contra o pecado que já se tornava cotidiano.
Por Alá! Não rezava e chorava todas as noites pela liberdade e o fim do sentimento que a consumia e a distanciava da verdade divina? Para quê, se no fim do dia teria de ajoelhar e pedir perdão? Como se não bastasse o prometido fogo do inferno, queimava em chamas de dor, lágrimas e desejo com aquele que agora dormia.
O cheiro doce do narguilé ainda era forte, mesmo com a corrente de ar que varria do quarto as lembranças da noite anterior – mais uma entre tantas. Procurou entre cacos e essências amargas suas roupas e os motivos que a levaram para lá. Sempre ficava alguma coisa, um brinco, uma esperança, uma música. Pegou tudo o que pode e saiu sem o beijo de despedida, como já era de costume. Olhando-o pela última vez, jurou a Alá que não voltaria. Já no caminho, soube entre sonhos e lembranças que esquecera algo importante, talvez parte de si.
continua...