Ana caminhou com passos de certeza pela rua escura, como quem vai de encontro ao inevitável. Com passos mais seguros que os seus, ele vinha com um sorriso tão certo quanto as suas intenções. E quanto a certeza de que ela não recuaria. E ainda havia tempo para recuar, mas Ana era dessas que preferem viver. E viver, afinal, era sentir. Sentir cada segundo como se pudesse guarda-lo para sentir de novo, quando tudo fosse só o silêncio de sua caneta e o eco de sua saudade. E toda a emoção e dor do sentir ela foi buscar ali naquele sorriso distante, que não era seu.
A lua cheia foi a única a testemunhar o que ninguém mais saberia. E a torcer para que Ana lembrasse ao menos uma vez, antes de cobri-lo de mimos e sonhos empoeirados, da mulher forte e sensata que se tornou quando deixou de se ocupar por ele. Mas Ana o cobria de carinhos querendo ser a menina insensata, porém transbordante, ao invés da mulher perfeita e vazia.
E as horas foram embora e a deixaram sozinha no quarto bagunçado. Mais um objeto entre os tantos outros usados e esquecidos ali, junto com a noite que não existiu. Olhou a imagem despenteada e borrada no espelho e, por um momento, sentiu nojo. Mas só por um segundo. Então viu a mulher de verdade. Porque toda mulher, quando entrega o seu colo e amor incondicional, o faz com a vontade pura de acolher dentro de si o homem amado, na tentativa de devolver-lhe todas as alegrias da infância em um único instante. O instante em que divide com ele os segredos da vida e desaparece com o mundo que não soube ser perfeito.
Guardou os arrependimentos, esperanças, roupas e lembranças; tomou um banho longo - como se pudesse sumir com aquele cheiro que tantas vezes confundiu com o seu – e foi comer sem vontade. Mas ainda acreditando que a vontade viria no dia em que não teria que comer sozinha. Nem que ligar a TV para afugentar a solidão. No dia em que todos os abraços seriam seus e as palavras não seriam medidas. Nessas horas era apenas a menina Ana, com estrelas nos olhos e nuvens na cabeça. E se ela pulava em abismos, é porque acreditava que os sentimentos abriam-se em asas. E o sabor do vento no rosto fazia tudo valer a pena. Era o gosto da vida.
