Friday, April 28, 2006

Só sei que escrevo...


- E o que você vai ser quando crescer?
- Escritora.

Aos seis anos eu aprendi (ao menos oficialmente, porque dizem as “línguas corujais” que eu já o fazia antes) os dois ofícios que realmente seriam úteis em toda a minha vida: ler e escrever. Não que eu os faça bem, mas posso dizer que é o que faço melhor e com mais prazer, tirando o bom e velho comer e dormir, que são natos para qualquer ser humano.
Desde o dia em que juntei o B com o A, soube que era aquilo que eu queria para a minha vida toda. A minha companhia nas terríveis horas de solidão (seja no saguão do aeroporto ou numa tarde de praia), a melhor forma de expressar minha opinião, o melhor calmante nas horas de desespero e o melhor analista para uma vida depressiva.
O papel e a caneta se tornaram meus melhores e mais fiéis amigos, mesmo que por um tempo eu os tenha trocado pela facilidade do computador. E se acaso eu caísse na desgraça de não ter sequer um guardanapo ou lápis de olho, ainda haveria alguma revista, propaganda ou até mesmo rótulos de produtos onde encontrasse o meu amado “B-A-BÁ”.
Mas afinal, qual é o motivo de tamanha paixão? Escrever por quê, pra quem? Escrevo não exatamente por gostar, mas porque a vontade de escrever é mais forte que os meus “gostos”. Minha psicóloga diz que é para suprimir a necessidade de ter alguém a quem se pudesse contar tudo. Minha avó acha que é meu jeito de fugir do mundo, quase um festejo à solidão. Os porteiros do meu antigo colégio, onde eu passava horas sentada na calçada escrevendo, alheia a tudo e a todos, diziam que eram cartas para namorado. Meus amigos apelidaram essas cartas de “viagens”, primeiro devido a sua falta de sentido, depois porque eu parecia estar viajando enquanto as escrevia. Então, não sei por que escrevo, só que escrevo e gosto de escrever. Para quem? Ninguém, pois não coloco destinatário nestas “cartas” e fico realmente furiosa quando alguém as pega pra ler.
Respondidas as duas perguntas acima, percebo uma terceira: qual é a inspiração, ou melhor, de onde vem tanto assunto? Essa é a parte mais fácil do processo. Só preciso ler alguma coisa para ser inteiramente tomada de inveja por quem a escreveu e ter vontade de escrever também, como se pudesse fazer a minha própria estória. De fato eu jamais teria paciência para escrever romances, capacidade para poesia, humor para as crônicas ou criatividade para os contos. Mas esta é a única maneira de manter vivo o meu mais antigo sonho infantil, já que parei de crescer. Mesmo tendo respondido o que eu queria ser na segunda linha e há dez anos atrás, ainda não sei o que fazer. Então, escrevo...


Maringá, 16 de dezembro de 2005.


Foto por Virgu.


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