[Femininas e inconfessáveis]
Depois da decepção de número 193228959, fui ao shopping pela 4ª vez na semana. O shopping, para uma mulher em crise, pode ser mais ou menos como uma geladeira para alguém ansioso: abre-se na procura de respostas e luz, encontra-se algo desnecessário e um pouco de luz artificial, mantém-se o vazio.
Encontrei um pouco de vaidade e roupas novas, perdi um pouco de dinheiro, não achei nenhuma resposta nem trombei com o Príncipe Encantado, que gentilmente pegaria minhas sacolas, me pagaria um capuccino na Kopenhagen e me levaria para casa no seu lindo Mercedes prateado.
De vestido novo, na frente do espelho, repito freneticamente o mantra da mulher auto-suficiente: "eu me basto, eu me basto, eu me basto". Eu me basto e me banco com as roupas, cabelo e maquiagem bonitos no espelho."Você está linda e você é feliz", repito sem acreditar. Até acreditar que eu não comprei o vestido para que ele desejasse me ver sem ele, e que talvez nunca mais chegue a ver. Até acreditar que pouco me importa se ele vem ou não para confirmar o que eu acabei de repetir pro espelho.
Baixo umas músicas legais da mulher esquisita que usa fantasias no clipe, mas insisto em dizer que baixei porque eu gosto de músicas estranhas e porque eu sou mesmo uma mulher que tem conteúdo musical. Fico cantando até acreditar que não foi para contar a ele que descobri mais uma boa cantora e aumentar o assunto. Mas nós sempre temos muito assunto e mesmo assim ele sai com garotinhas sem assunto em todos os outros dias em que não estamos conversando, rindo ou reclamando infinitamente sobre coisas de adulto.
Assisto o chefe italiano na televisão fazer aquela massa que o Pavarotti adora. Faço a receita de forma perfeita e digo para mim mesma que fiz porque eu gosto mesmo de cozinhar e sempre fui boa nisso. Repito várias vezes até acreditar que não pretendo fazer para ele quando tomarmos mais um daqueles vinhos de tanino acentuado. Porque talvez não haja mais vinho nenhum nem confissões culinárias.
Encontrei um pouco de vaidade e roupas novas, perdi um pouco de dinheiro, não achei nenhuma resposta nem trombei com o Príncipe Encantado, que gentilmente pegaria minhas sacolas, me pagaria um capuccino na Kopenhagen e me levaria para casa no seu lindo Mercedes prateado.
De vestido novo, na frente do espelho, repito freneticamente o mantra da mulher auto-suficiente: "eu me basto, eu me basto, eu me basto". Eu me basto e me banco com as roupas, cabelo e maquiagem bonitos no espelho."Você está linda e você é feliz", repito sem acreditar. Até acreditar que eu não comprei o vestido para que ele desejasse me ver sem ele, e que talvez nunca mais chegue a ver. Até acreditar que pouco me importa se ele vem ou não para confirmar o que eu acabei de repetir pro espelho.
Baixo umas músicas legais da mulher esquisita que usa fantasias no clipe, mas insisto em dizer que baixei porque eu gosto de músicas estranhas e porque eu sou mesmo uma mulher que tem conteúdo musical. Fico cantando até acreditar que não foi para contar a ele que descobri mais uma boa cantora e aumentar o assunto. Mas nós sempre temos muito assunto e mesmo assim ele sai com garotinhas sem assunto em todos os outros dias em que não estamos conversando, rindo ou reclamando infinitamente sobre coisas de adulto.
Assisto o chefe italiano na televisão fazer aquela massa que o Pavarotti adora. Faço a receita de forma perfeita e digo para mim mesma que fiz porque eu gosto mesmo de cozinhar e sempre fui boa nisso. Repito várias vezes até acreditar que não pretendo fazer para ele quando tomarmos mais um daqueles vinhos de tanino acentuado. Porque talvez não haja mais vinho nenhum nem confissões culinárias.
Eu me basto e me garanto, mas sei também que preciso dele. Porque preciso ver minha imagem refletida em alguém para ter certeza de que sou. Porque apenas "sou" quando tenho para quem ser. Do contrário, apenas "tenho". Assunto, roupas, qualidades; mas sou ninguém.
5 comments:
Bem que dizem por aí que "nenhum homem é uma ilha". Ninguém é nada sozinho...
Preciso dizer que adorei?
Beijos!
ficou muito bem dito. e se muitas vezes, fica o dito pelo não dito, a gente emenda e diz que nós não "somos" exclusivamente através de outras pessoas; nesse meio entra o zouk, entra o blog, e qualquer coisa me liga =)
beijo, felipe.
"Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho..."
;D
O que mais me impressiona no seu texto é essa capacidade que você tem de começar escrever uma coisa e terminar de forma totalmente inesperada. Quem lê o primeiro parágrafo nunca imaginaria que veria, no último, "Porque preciso ver minha imagem refletida em alguém para ter certeza de que sou. Porque apenas "sou" quando tenho para quem ser."
Viajar até que é simples. A questão é que a sua viagem, apesar de sem programação definida, é toda interligada. De algum forma, você consegue fazer com que uma coisa leve à outra.
Já falei que você é minha escritora-quase-desconhecida preferida?
Acredita que eu nem lembrava que já tinha lido esse texto, quando comecei a lê-lo de novo? A culpa é da tal primeira linha que não me deixa adivinhar o final. E, acredite, lendo-o pela segunda vez, acabo de descobrir detalhes que antes passaram totalmente despercebidos. Já falei que os bons textos costumam se renovar com as nossas experiências?
Beijos
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