Monday, December 17, 2007

Chanson juste pour moi

Eu queria mesmo escrever uma canção daquelas bem tristes, com o que restasse da minha voz que cansou de gritar. Porque meu coração não bate no compasso das palavras agudas, e sim na melodia cansada das notas graves. Mas então eu pego o Blues do meu peito, misturo com o rosa pintado no céu e uso todas as luzes de natal para arrematar. Tudo fica lilás e esta não é mais uma Chanson Triste. É o Jazz de quem agora canta porque um dia cansou de chorar.

Monday, December 10, 2007

Questões existenciais I

[Femininas e inconfessáveis]
Depois da decepção de número 193228959, fui ao shopping pela 4ª vez na semana. O shopping, para uma mulher em crise, pode ser mais ou menos como uma geladeira para alguém ansioso: abre-se na procura de respostas e luz, encontra-se algo desnecessário e um pouco de luz artificial, mantém-se o vazio.
Encontrei um pouco de vaidade e roupas novas, perdi um pouco de dinheiro, não achei nenhuma resposta nem trombei com o Príncipe Encantado, que gentilmente pegaria minhas sacolas, me pagaria um capuccino na Kopenhagen e me levaria para casa no seu lindo Mercedes prateado.
De vestido novo, na frente do espelho, repito freneticamente o mantra da mulher auto-suficiente: "eu me basto, eu me basto, eu me basto". Eu me basto e me banco com as roupas, cabelo e maquiagem bonitos no espelho."Você está linda e você é feliz", repito sem acreditar. Até acreditar que eu não comprei o vestido para que ele desejasse me ver sem ele, e que talvez nunca mais chegue a ver. Até acreditar que pouco me importa se ele vem ou não para confirmar o que eu acabei de repetir pro espelho.
Baixo umas músicas legais da mulher esquisita que usa fantasias no clipe, mas insisto em dizer que baixei porque eu gosto de músicas estranhas e porque eu sou mesmo uma mulher que tem conteúdo musical. Fico cantando até acreditar que não foi para contar a ele que descobri mais uma boa cantora e aumentar o assunto. Mas nós sempre temos muito assunto e mesmo assim ele sai com garotinhas sem assunto em todos os outros dias em que não estamos conversando, rindo ou reclamando infinitamente sobre coisas de adulto.
Assisto o chefe italiano na televisão fazer aquela massa que o Pavarotti adora. Faço a receita de forma perfeita e digo para mim mesma que fiz porque eu gosto mesmo de cozinhar e sempre fui boa nisso. Repito várias vezes até acreditar que não pretendo fazer para ele quando tomarmos mais um daqueles vinhos de tanino acentuado. Porque talvez não haja mais vinho nenhum nem confissões culinárias.
Eu me basto e me garanto, mas sei também que preciso dele. Porque preciso ver minha imagem refletida em alguém para ter certeza de que sou. Porque apenas "sou" quando tenho para quem ser. Do contrário, apenas "tenho". Assunto, roupas, qualidades; mas sou ninguém.