Sunday, November 18, 2007

A enfermidade do amor

É em mais um dia exatamente igual a todos os outros que os sintomas, de fácil diagnóstico, aparecem. O quarto é o mesmo, o retrato é o mesmo, as músicas ainda tocam, as horas vão passar exatamente igual. Mas naquele segundo entre parar de sonhar e abrir os olhos já tem alguma coisa diferente, um espaço vazio. E o espaço vazio logo puxa alguma idéia, projeto ou "será que eu faço chá ou suco?" para se ocupar. E o dia vai passar normalmente, sem que qualquer pensamento faça falta.
Mas até lá, ele vai resistir. Ainda que pela inércia da mente, ou porque seguir um padrão é sempre mais fácil, ele vai resistir. E no meio da tarde você vai se lembrar que não se lembrou dele ainda. O amor resiste, enfermo e amedrontado. E o resultado do exame aparece numa dessas noites que desbotaram. Você, ele, a música da Norah Jones, o mesmo toque e o mesmo beijo, o mesmo perfume. Tudo igual, mas com outra cor. As borboletas voaram barriga a fora, a mão esquentou, a boca esfriou. É o amor moribundo, quando a esperança já morreu. É o amor que vai se encolhendo, entre um gole de café e uma sessão de teatro. O amor que vai murchando, triste, entre um telefone que não tocou e um sorriso que não apareceu. É o amor que vai morrer cansado, numa tarde qualquer, entre duas novas risadas e mais dois goles de café.