Diário de bordo de uma viagem etérea.
É madrugada, até os grilos dormem e aqui estou eu lutando para ser racional, já que na minha espécie racionalidade é sobrevivência. Há uma montanha de livros e réguas e compassos e calculadoras e gráficos e equações e estrelas e substâncias e astronaves e fórmulas até o céu, subindo além dos meus olhos e da minha mesa. Estou tentando compreendê-los, e a cada momento descubro que estou mais viva que no segundo passado: agora eu já sei mais. Emociona-me saber da exatidão das coisas, porque ao contrário dos meus sentimentos, o universo é tão exato!
Levanto a cabeça ao céu e meu orgulho humano fraqueja. O que tem ali e tão longe? O que sou eu diante de tanto, se não um ínfimo pedaço de nada metido a entendedor do que nem sei? Nem sei...Nem sei quem sou e o que faço aqui. A curiosidade – que já vem de fábrica – me faz perguntar, o medo do desconhecido me faz calar.
O silêncio é tão grande que penso ouvir risadas. Imagino se não tem alguém ali, no gigante negro do céu, bem maior que eu, que ri das minhas certezas. Da verdade, pequeno, não sabes nem a menor parte. Ri e me observa soberana em meu aquário, onde finjo saber das pedras e das plantas e do vidro e da água e do chacoalhar; sem saber o que vem além e o que ali me mantém.
Volto então ao meu saber de grão de areia, dos sentimentos que, mesmo não exatos, ao menos estão em meu domínio. Enquanto ao resto... Bem sei que nada sei.
[sem fotos porque eu tenho medo de fotos do universo. Sério mesmo!]
