Wednesday, February 28, 2007

Estudando exatas I

Diário de bordo de uma viagem etérea.
É madrugada, até os grilos dormem e aqui estou eu lutando para ser racional, já que na minha espécie racionalidade é sobrevivência. Há uma montanha de livros e réguas e compassos e calculadoras e gráficos e equações e estrelas e substâncias e astronaves e fórmulas até o céu, subindo além dos meus olhos e da minha mesa. Estou tentando compreendê-los, e a cada momento descubro que estou mais viva que no segundo passado: agora eu já sei mais. Emociona-me saber da exatidão das coisas, porque ao contrário dos meus sentimentos, o universo é tão exato!
Levanto a cabeça ao céu e meu orgulho humano fraqueja. O que tem ali e tão longe? O que sou eu diante de tanto, se não um ínfimo pedaço de nada metido a entendedor do que nem sei? Nem sei...Nem sei quem sou e o que faço aqui. A curiosidade – que já vem de fábrica – me faz perguntar, o medo do desconhecido me faz calar.
O silêncio é tão grande que penso ouvir risadas. Imagino se não tem alguém ali, no gigante negro do céu, bem maior que eu, que ri das minhas certezas. Da verdade, pequeno, não sabes nem a menor parte. Ri e me observa soberana em meu aquário, onde finjo saber das pedras e das plantas e do vidro e da água e do chacoalhar; sem saber o que vem além e o que ali me mantém.
Volto então ao meu saber de grão de areia, dos sentimentos que, mesmo não exatos, ao menos estão em meu domínio. Enquanto ao resto... Bem sei que nada sei.
[sem fotos porque eu tenho medo de fotos do universo. Sério mesmo!]

Sunday, February 04, 2007

La vie en rose


- Eu já disse que não quero pensar. Não pense também.
- Você acha que é tão ruim que tem que ser irracional?
Clarice achava que sim. Na verdade, era tão bom e simples que não podia ser pensado. A verdade, às vezes, serve apenas para ser vivida. Porque se você parar para vê-la em seus detalhes, os belos reflexos coloridos mostram que são apenas de cristal fino e frágil. Então Clarice sorria ao ver as cores indo e vindo diante de seus olhos, mas não procurava entender ou explicar.
- Não tem que ser irracional, já é. Se não for, estarei pecando.
- E vai deixar de ser pecado porque você não pensou?
Não, sabia que era pecado. Mas não queria pensar, porque uma confissão só vale com arrependimento. E é claro que não estava arrependida. Estava feliz. Por que será que a felicidade sempre era pecado? E quem disse que estavam pecando? Não se amavam, é verdade, mas estavam felizes. Isso é que deveria importar.
- Mas eu queria que você pensasse. Porque eu penso.
Agora sim, Clarice parou de pensar. Porque pensar não levava a nada e ela queria a entrega. A entrega completa e irracional de quem ama por alguns momentos, mas sem a mente. O amor de corpo, alma e só. Agora, e ao menos agora, não era pecado. So she closed her eyes to see la vie en rose…

[ La vie em rose – Ella Fitzgerald e Louis Armstrong ]